quinta-feira, agosto 07, 2008

o erro de Marie

Ando agora a ler há já algum tempo Flannery O'Connor sem realmente ter alguma vez chegado à conclusão de que Deus existe ou não. Aliás, os romances dela permitem essa leitura. Meu eu agora quero uma experiência verdadeira do «mistério» de que ela fala; saber como é que a pessoa sente. Apenas tocar no limiar, de modo a poder dizer a mim própria, oh, afinal é assim, e depois recuar. Ficarei do outro lado apenas o tempo suficiente para perpassar por ele. Sou curiosa (...)

segunda-feira, agosto 04, 2008

An Echo of Heaven

de Kenzaburo Oe

foi a minha recente leitura (ao tempo que não terminava um livro... e foram precisas algumas tentativas para conseguir fazê-lo).

fala de uma mulher que o autor - não sei se para forçar a colagem à discussão religiosa - chamou Maria.
Maria é uma mulher inteligente e intelectual, uma mulher forte

entrega-se a batalhas mas, não consigo deixar de pensar assim, sempre de uma forma exterior (apesar de todo o empenho que ela mostra)
- desde a protecção dos seus filhos (um deles deficiente, o outro que vem a ficar paralítico)
- à protecção de uns jovens 10-15 anos mais novos que a idolatram
- e o estar em tanta coisa (desde o apoio a grevistas de fome a ajudar uma companhia de teatro das filipinas num tour pelo japão)

morrem os filhos, morrem tragicamente, suicidam-se
e ela bate a todas as portas do seu raciocínio lógico e não compreende

não compreende

mete-se numa comuna religiosa, típica dos 60-80 (grupos de pessoas a quem a vida escapou-se-lhes do controlo, sem esperança que tentam caminhar juntas mas fora da Igreja, às vezes perdidas atrás de guias espirituais que estão eles próprios iludidos)
mete-se nessa comuna mas sempre exterior - sabe que aquela experiência de fé não é a que preenche o seu coração, não é a resposta que procura

e repulsa-lhe a ideia que o guia da comuna lhe tenta incutir:
- se no início era o Logos, então tudo o que existe, tudo o que é sentido pode ser entendido com a inteligência

esta resposta oiço-a tantas vezes nos corredores da Igreja (e sim, também já a dei tantas vezes quando me batiam à porta a pedir conselho): se isso aconteceu, há-de haver um sentido (lógico) para ter acontecido.

não quer dizer que não acredite, só acho que não é essa resposta que nos sossega - porque ficamos esperançados em encontrar essa lógica que, tantas tantas vezes, nos ultrapassa, é inalcançável com a nossa inteligência reduzida (mesmo que inflamada pelo Espírito Santo, há coisas que nos queimariam vivos se nos encontrássemos diante da presença inteira de Deus... que nos quer vivos para O amar e aceitarmos o seu amor)

não sei se fará sentido (talvez logo apague este post) mas às vezes, só uma resposta de confiança e de abandono e de "não pensar" é que não nos leva à loucura

isso de "levar a cruz", "completar em mim a Paixão", "entregar pelos outros"... são expressões que só serão verdadeiras quando as dissermos por nós, quando vierem directas do coração, sem esquemas de auto-ajuda

Maria não confiava em ninguém e era uma pessoa extraordinariamente só
o que não implicou fazer as coisas e entregar-se a causas e ser aclamada como "santa"
mas da leitura da personagem, fica-me esse gosto de quem aceitou um papel, uma representação de si, para conseguir acordar todos os dias
de quem, para controlar o desejo sexual, passou da cedência ao impulso, à procura da satisfação do impulso (sozinha ou acompanhada) chegando à anulação do impulso (com um voto circular feito para ela mesma).

o que faltou a Maria? um encontro com alguém que estivesse ao lado dela, só para ela e sem depender dela.

[passagem sobre o mistério]

contrariedades

não gosto do verão, faz-me sentir sozinha (que é diferente de estar só)
sentimento que é reforçado por comentários que vão desde o assumir que esse é e será o meu estado (o meu pai, indirectamente, que me fez lembrar um outro "pai"), ao atirar-me culpas por esse facto (indirectamente, os comentários dos amigos de "ter de trabalhar" para encontrar alguém), passando pelos amigos que têm os seus planos de férias já organizados e aos cortes de mais ou menos última hora.

não gosto do verão, o calor excessivo desorienta-me
e ando naquele ponto enjoado de excessivas elevações que não me convencem - hoje sou rés-do-chão bem céptico (apesar de sonhar com um andar com vista)

e contrario-me, tentando cantar/rezar 2 vezes

Confiarei nessa voz que não se impõe
Mas que ouço bem cá dentro no silêncio a segredar.
Confiarei ainda que mil outras vozes
Corram muito mais velozes para me fazer parar
E avançarei, avançarei no meu caminho
Agora eu sei que tu comigo vens também
Aonde fores aí estarei em Ti avançarei

O Senhor é o meu pastor, sei que nada temerei
Ele guia o meu andar, sem medo avançarei. (bis)


Confiarei na Tua mão que não me prende
mas que aceita cada passo do caminho que eu fizer
Confiarei ainda que o dia escureça
Não há mal que me aconteça se contigo eu estiver.
E avançarei, avançarei...

Confiarei, por verdes prados me levas
e em Teu olhar sossegas a pressa do meu olhar.
Confiarei, a frescura das Tuas fontes
Deixa a minha vida cheia, minha taça a transbordar.
E avançarei, avançarei...

... tenho períodos de vida que fecham de 3 em 3 anos.

segunda-feira, julho 14, 2008

no fim da pausa de almoço

o que anda a acontecer? (um ponto de situação breve e talvez non-sense)

- implusões e reconstruções (essa Esperança a fazer das suas...)
- reconhecer as minhas limitações - não sou super-mulher, não posso chegar a tudo, o activismo não me alimenta a fé
- ver-me mendiga apesar de tudo... e, consequentemente, relativizar o meu voltar de coração cego
- agradecer a mila
- agradecer a melhor relação com o meu irmão
- ter saudades viscerais da baixa e do chiado
- passear com os amigos

foi uma semana que me fortaleceu

se fizer uma tatuagem, talvez me marque assim: שמע (Schemá)
para nunca me esquecer...

sexta-feira, junho 20, 2008

ao acaso

rezo com o NT à minha frente, arrisco-me à Palavra que Ele tem para mim hoje.
ao acaso: Jo 20, 11-18

se em Alemanha e em madalena interseccionada era a não correspondida
hoje é-me pedido que não detenha quem me corresponde
ontem como hoje, "não deter a vontade de Deus"

também a missa de Domingo passado foi "para mim" - mas como é que não desistes de mim? - quando fui ler a 2ª leitura, tremia trespassada pelo Espírito, indigna de proclamar a Palavra:
Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Romanos
Irmãos: Quando ainda éramos fracos, Cristo morreu pelos ímpios no tempo determinado. Dificilmente alguém morre por um justo; por um homem bom, talvez alguém tivesse a coragem de morrer. Mas Deus prova assim o seu amor para connosco: Cristo morreu por nós, quando éramos ainda pecadores. E agora, que fomos justificados pelo seu sangue, com muito mais razão seremos por Ele salvos da ira divina. Se, na verdade, quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho, com muito mais razão, depois de reconci­liados, seremos salvos pela sua vida. Mais ainda: também nos gloriamos em Deus, por Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem alcançámos agora a reconciliação.

vítor, o post anterior não era incentivo à auto-estima, era espelho para me lembrar de quem sou...

domingo, junho 08, 2008

Palavras de amiga


Olha bem para o fundo de ti,
olha para quem tu és,
pensa se não és uma mulher íntegra, de carne e osso!
Aproveia os dias de sol, diverte-te mas sê inteiramente feliz... - não só pela metade!
Tu que és uma lutadora pela perfeição!
Que gostas da claridade e de contas certas!



lembro-me de http://so-no-misterio.blogspot.com/2004/07/de-repente.html

quarta-feira, maio 28, 2008

ponto de situação - a fé

entre abril e maio, em revisão

depois da peregrinação [ao cabo espichel], vim para casa:
- primeiro boleia
do Sr. Bispo até à corredoura, depois do Diácono Rui até azeitão, voiture da
milene inteira e sem multa, regresso a casa, banho (que bom!), jantar e...
preparar a mala para segunda de manhã viajar até liverpool
(...)
mas
o que ficou desta semana? agora que paro, ficou a caminhada do fim-de-semana
passado:
- estarmos uns com os outros, estarmos entre amigos e irmãos na fé,
entre alegria e correcções fraternas, na simplicidade de ir caminhando entre
sítios tão bonitos (a arrábida é bela!)
- estar com os meus amigos da amora -
em grande! são os maiores! - mas também com tantos outros, alguns deles que
nunca tinha tido oportunidade de conversar um pouco melhor
- estar mais
para o final na fila das idades e perceber como somos testemunhas de Cristo
uns para os outros (não é só no mundo!)
- estarmos com o Bispo, que nos
surpreendeu ao querer conversar connosco (mesmo!), querer saber de nós,
perceber que ele nos quer unidos, porque a união é sinal de que somos de
Cristo e porque o sinal físico da união (sermos muitos) dá-nos ânimo, dá-nos
esperança e coragem para irmos até onde somos poucos! (por exemplo, até
liverpool)

Sim, foi muito bom!


«sempre foste "religiosa"?»
recordo o que disse aos miudos do retiro de profissão de fé:
- se não tivesse dito com a consciência dos 14 anos que acreditava (e que
queria acreditar)
- se não tivesse pedido do fundo do coração que o Espírito me animasse
quando fui crismada,
- se a experiência das jornadas mundiais em roma2000 não tivesse sido tão
acutilante
- se não tivesse tido tantas pequenas revelações de Deus na minha
vida
não estaria em Igreja hoje
mais (que não disse aos miudos)
- se a fé não tivesse estimulado a razão,
- se a esperança não tivesse treinado a atenção
- se a caridade não dilatasse o meu coração
seria eu ainda católica?


... apesar do cansaço e do vazio...