segunda-feira, novembro 14, 2005

Qualquer coisa de fim de dia não pontual


Alberto Giacometti, Piazza, 1947–48 (cast 1948–49).
Bronze, 21 x 62.5 x 42.8 cm.
Peggy Guggenheim Collection.


Roda de cores

ela subiu ao muro do Cais
e na altura em que subiu,
o céu começava a roda das cores
na procura da paleta certa.

no outro lado, a península
de planos rasos à água
recortados pelos prédios emaranhados,
a arrábida como pano de fundo

o rio une o que ele próprio separa
num ritmo rápido para chegar ao mar
- era impossível não termos partido
a corrente puxa-nos o olhar e a vontade!

mas ela não ia partir.

subiu ao muro para subir
dentro de si sem justificações,
num gesto simples e exterior.

ela subiu ao muro do Cais
ele subiu logo a seguir e deu-lhe a mão
e não sei se foi ataque romântico
mas o céu passou a encarnado nessa altura

domingo, novembro 13, 2005

Hoje é Domingo


... tive medo ...


Matemática do Reino

a questão não é contar sempre o que já dei e já recebi
e fazer a tabela da contabilidade
mesmo sem a marca da tesouraria
é grande a tendência de o fazer..

a questão não é contar os talentos
a questão e multiplicar sempre o que tenho
que pela minha parte eu esteja totalmente empenhada
e sem medo

volto ao mesmo
a questão é amar sempre
até ao máximo do meu coração
e mais!
percebê-lo rasgar-se
para acolher os talentos multiplicados

não tenhais medo de vos dar a Cristo! Ele não tira nada, dá tudo

Ontem foi sábado


"Salve Rainha" te repetimos nós, hoje, porque esperamos que nos conduzas a Cristo, fonte da Vida, porque te pedimos que nos ensines a amar com a simplicidade e radicalidade com que o teu coração de mulher se abriu ao amor, porque queremos confiar em Ti, deixar-nos atrair por Ti, porque nos abandonamos à Tua ternura maternal.

...foi inevitável a emoção!
ver Lisboa sair à rua para rezar a Nossa Senhora,
ver a imagem tão no coração da cidade,
perceber que Nossa Senhora também vai descendo devagarinho aos nossos corações...

terça-feira, novembro 08, 2005

Contexto, banda sonora, sequência e leitura..


... sento-me ao espelho e grito ..

Muito pouco

pronto
agora que voltou tudo ao normal
talvez você consiga ser menos rei
e um pouco mais real
esqueça
as horas nunca andam para trás
todo dia é dia de aprender um pouco
do muito que a vida trás

mas muito pra mim é tão pouco
e pouco é um pouco demais
viver tá-me deixando louca
não sei mais do que sou capaz
gritando pra não ficar rouca
em guerra lutando por paz
muito pra mim é tão pouco
e pouco eu não quero (mais)

chega!
não me condene pelo seu penar
pesos e medidas não servem
pra ninguém poder nos comparar
por que
eu não pertenço ao mesmo lugar
em que você se afunda tão raso
não dá nem pra tentar te salvar

... veja
a qualidade está inferior
e não é a quantidade que faz
a estrutura de um grande amor
simplesmente seja
o que você julgar ser o melhor
mas lembre-se que tudo o que começa com muito
pode acabar muito pior

Maria Rita, Segundo


.. sento-me ao espelho e grito ..
corro rápido na descida
chego e despejo
e peço peço peço
e recebo o encontro que me abençoa
volto e penso e penso
demais, já sei
quando vou à tua procura
não estás
.. sento-me ao espelho e grito ..
.. e paro de gritar porque há a certeza:
quem ama, corrige


Deixando às almas grandes, às grandes inteligências, os belos livros que não posso compreender, e ainda menos pôr em prática, regozijo-me por ser pequenina.

Sta Teresinha, carta 226 ao P. Roulland

domingo, novembro 06, 2005

Hoje é Domingo

Klimt, A árvore da vida (1905-1909)

(as memórias que esta pintura me traz.. e só a descobri hoje! a espera e o cumprimento)


Quem a busca desde a aurora não se fatigará, pois há-de encontrá-la sentada à sua porta.
Livro da Sabedoria

O que nos une é como um laço
que não sinto se vou ao teu passo
mas fere quando paro
na caminhada.

O que nos une é o teu olhar
que me faz tremer e vacilar
na timidez do quase mulher
prescrutada.

O que nos une é secreto e forte
O que nos une é a tua vontade
de veres-me da minha miséria
resgatada.

terça-feira, novembro 01, 2005

no mês do Rei



foi ganhando peso na minha vida
crescendo
como uma missão entregue:
nasci no fim, e agora?
na lógica absurda
no fim procurar o infinito
este coração pequeno
com desejos fortes que o rasgam
tenta rasgar-se ainda mais
quase violentamente
excessivamente!
quando me olhas com desejo
de quem me espera desde sempre

mês da urgência de olhar pela memória
não pela janela onde me debruço demais
mas através da porta por onde quero entrar
oiço a festa no outro lado:
ainda não participo plenamente
mas sou chamada, no mistério.

uma ajuda

J.M.J.T.

(...)
Celina, Deus não me pede já nada...
No princípio pedia-me uma infinidade de coisas. Pensei durante algum tempo, visto que Jesus não me pedia nada, que agora era preciso caminhar suavemente na paz e no amor fazendo somente o que Ele me pedisse... Mas tive uma luz.

Santa Teresa diz que é preciso alimentar o amor. A lenha não se encontra ao nosso alcance quando estamos nas trevas, na aridez, mas não estaremos ao menos obrigadas a lançar nele algumas palhinhas? Jesus é suficientemente poderoso para conservar sozinho o fogo, todavia fica contente por nos ver alimentá-lo, é uma delicadeza que Lhe agrada e então lança Ele no fogo muita lenha, nós não O vemos mas sentimos a força do calor do amor. Tenho feito disto a experiência, quando não sinto nada, quando sou incapaz de rezar, ou de praticar a virtude, é então o momento de procurar pequenas ocasiões, nadas que dão gosto, mais gosto a Jesus do que ao império do mundo ou mesmo do que o martírio sofrido generosamente, por exemplo, um sorriso, uma palavra amável quando teria vontade de não dizer nada ou de mostrar um ar aborrecido, etc., etc. Compreendes querida Celina?

Cta 143 A Celina, Sta Teresinha