segunda-feira, agosto 15, 2005

Assunção da Mulher

Vai mulher, corre
não temas não olhes segue!
corre mais, corre
chega ao lugar que te sossegue

vai mulher, salta
levanta mais alto as mãos
salta alto, salta
mete de parte pesos vãos

vai mulher, grita
geme como quem dá à luz
grita ao mundo, grita
que te oiça quem te seduz


vai mulher, cresce
não tenhas medo da solidão
segue o deserto, segue
rasga por dentro o coração


levanta-te mulher
apanha as migalhas e caminha
levanta o corpo e entrega-o
levanta o cálice e derrama-te
vai mulher
ama

Camille CLAUDEL, Le Dieu Envolé, 1894
Bronze, patine castanha

Assunção da Virgem

Vasco Fernandes, Assunção da Virgem

... do Hino Akathistos

A ti, Maria, como a general invencível, meus cantos de vitória!
A ti, que me livraste de meus males, ofereço meus cantos de reconhecimento.
Pois que tens uma força invencível, livra-me de toda espécie de perigos, a fim de que te aclame: Ave, Virgem e esposa!

Desejava a Virgem entender o mistério, e ao divino mensageiro pergunta:
Poderá uma virgem dar à luz um menino?


sábado, agosto 13, 2005

caminho de infância..


...quando supostamente queremos crescer








(Eu tinha um bibe azul...
Tinha berlindes,
tinha bolas, cavalos, papagaios...
A minha Mãe ralhava assim como quem beija...
E quantas vezes eu, só pra ouvi-la
ralhar, parti os vidros da janela
e desenhei bonecos na parede...)

Vida!, ralha também,
ralha, se eu te fizer maldades, mas de manso,
como se fosse ainda a minha Mãe...

O Menino Grande (excerto), Sebastião da Gama em Itinerário Paralelo, 1952

recortes de uma colónia


mãozinhas pequeninas que nos tocam terapeuticamente
e do toque da pele chegam ao coração da alma
suavizamos
pela contemplação com as crianças
das pequenas coisas
simples
como as conchas do mar

olhar o mundo com os olhos grandes
olhar a vida com a esperança de quem está no início
e confiar em quem nos guarda
longe dos pesadelos
quem nos dá um colo

chorar e rir porque a fala é tão complicada
conhecer vendo e estando porque falar complica sempre
esperar as surpresas
crescer nas correcções
birras amuos
personalidades já tão vincadas
e partindo das carências tantos tantos tesouros

imaginar a maternidade..

_______________________

A Flor

- Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiment pas faire mieux. Henri Matisse

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essa linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, 1921

terça-feira, agosto 02, 2005

uma história do mar


a bruxa sozinha pensou no mar
e longe longe foi passear
chegou cedo a esse lugar
e ficou sossegada
talvez a descansar

na altura certa da falta de ar
levantou-se rápido a caminhar
quem diria o qu'ia encontrar
uma pedra rachada
com jeitos de brincar

surpresa! ela nem quis olhar
passou entre pessoas a passar
e a criança finge não notar
essa grande fachada
do querer (não) encontrar

a pedra ficou, olhava o mar
estava com outras talvez a gozar
a bruxa chegou e foi nadar
uma grande braçada
para não desesperar

voltava às vezes a esperar
que a pedra a (não) fosse procurar
o tempo passou e ela olhar
quebrou-se o nada
do real a regressar

meninos e meninas, não vão acreditar
mas as pedras são mestras no fazer lembrar
têm dentro os segredos
do tempo das bruxas
têm dentro os segredos
do fundo do mar

(mesmo que depois venham a apagar...)

sábado, maio 21, 2005

Recantos

Há algures na cidade um cantinho. Só luz suficiente para iluminar a coluna com o disco dourado, com uma espiga de trigo trabalhada, por trás do qual Ele se esconde. Silêncio na casa. Jovens. "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome...".


Se me envolve a noite escura...


Terceiro banco da direita, junto ao corredor central. Cara enterrada nas mãos. Silêncio no coração, ao menos uns minutos na semana. Perdão, Pai. Obrigada, Filho. Permanece, Espírito.


...e caminho sob abismos de amargura...


Em cima do altar, o cálice, por agora inerte, por agora quotidiano, mas ainda assim sinal do Absoluto, do Amor.


...nada temo, porque a luz está comigo...


Amanhã a catequese. Ainda não peguei nas coisas. (Amor que impulsiona, Amor que não deixa parar, Amor que se dá.) Amanhã aqui de novo. Antes de começar, depois de acabar. E Ele no centro. Ou assim devia ser. Vai sendo, conforme o peso da alma e a entrega do coração.


...nada temo, porque a luz está comigo.


Boa noite, capela. - A paz, essa vem comigo para casa.

domingo, maio 01, 2005

Viver

Textos extraídos do guião de retiro para as minhas "miúdas" em preparação para a Confirmação.

"I - Fundamentalismo
Há pessoas que se agarram com unhas e dentes às ideias ou práticas que lhes dão segurança e identificam a fé com essas suas crenças. Não há espaço para o diálogo nem para a diferença. O que conta não é a palavra viva de Jesus mas a fidelidade à letra.

Não se dão conta que Deus é muito maior do que a nossa capacidade de O entender e por isso acham que há apenas uma verdade (a sua), que só se pode rezar de uma maneira (a "oficial"), que só há uma maneira de agir ("como manda a tradição").

No centro das suas vidas não está a fé em Deus vivo mas as ideias que têm sobre Deus.

Para eles a diferença é uma traição; o diálogo uma cedência; as coisas novas são uma degradação.

Quando falam insistem muito na fidelidade. Mas entendem-na como um cheque em branco passado às suas tradições e não como a busca apaixonada de encontro com o Senhor Jesus.

Falam de tradição e entendem-na como repetição do passado e não como fruto da criatividade que o Espírito Santo vai sugerindo à Igreja ao longo dos tempos.

Falam de obediência à autoridade e à lei como maneira de resolver todos os problemas, obrigando-nos a renunciar à nossa responsabilidade de pensar. Esquecem-se que obedecer é o esforço sempre renovado de ouvir a voz de Deus e de pôr o nosso coração em sintonia activa com a Sua Palavra.

Parecem ser os mais entusiastas na fé. Mas no centro das suas vidas não está o Deus revelado em Jesus Cristo e sim os seus hábitos, ideias e tradições."