quinta-feira, março 10, 2005

Escuto

Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
Ou Deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


Sophia de Mello Breyner Andresen

domingo, março 06, 2005

4º Domingo

Santo Ireneu de Lyon (cerca de 130 - cerca de 208), bispo, teólogo e mártir
Contra as Heresias

Quando se tratou do cego de nascença, não foi só por uma palavra mas por uma acção que o Senhor lhe concedeu a vista. Não agiu assim sem razão nem por acaso, mas para que conhecêssemos a Mão de Deus que, no princípio tinha modelado o homem. Por isso, quando os discípulos lhe perguntaram de quem era a culpa deste homem ser cego, dele mesmo ou dos seus pais, o Senhor declarou: "Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus". Estas "obras de Deus" são, primeiro que tudo, a criação do homem que a Escritura bem descreve como uma acção: "E Deus tomou um pouco de argila e modelou o homem" (Gn 2,7). Foi por isso que o Senhor cuspiu no chão, fez lama e ungiu os olhos do cego. Mostrava assim de que modo se tinha realizado a moldagem inicial e, para aqueles que eram capazes de compreender, manifestava a Mão de Deus que tinha esculpido o homem a partir da argila...

E porque, nesta carne modelada em Adão, o homem tinha caído na transgressão e precisava do banho do novo nascimento (Tt 3,5), o Senhor disse ao cego, após ter-lhe untado os olhos com a lama: "Vai lavar-te à piscina de Siloé".
Concedia-lhe assim ao mesmo tempo a remodelagem e a regeneração operada pelo banho. Desta forma, depois de se ter lavado, "ele regressou, vendo bem", a fim de reconhecer aquele que o tinha remodelado e aprender ao mesmo tempo quem era o Senhor que lhe tinha dado a vida...

Assim, aquele que, no princípio, tinha modelado Adão e a quem o Pai tinha dito: "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança" (Gn 1,26), esse mesmo se manifestou aos homens no fim dos tempos e remodelou os olhos deste descendente de Adão.

quinta-feira, março 03, 2005

Confio, por isso sou livre?

Uns reduzem a liberdade e a ideia de livre-arbítrio, fazendo-o desaparecer sob o jugo da servilidade e do conformismo. Esquecem que a obediência à vontade de Deus tem que vir da adesão do coração, e da confiança plena e sincera de que o que Ele me reserva é efectivamente o melhor para mim. Se a adesão não for voluntária - e ainda mais, se não nascer da compreensão - só pode levar ou à revolta ou a um conformismo apático ou fideísta, que destrói o próprio valor da confiança.
Esta necessária compreensão de que se fala não passa por tentar escrutinizar os desígnios de Deus, nem se trata de um contrato que só assinamos depois de ter a certeza que todas as cláusulas estão ao nosso gosto. Tal como diz Edith Stein, "Tais condições não se inscrevem num contrato com o Céu. A confiança em Deus será apenas inquebrantável se se está disposto a aceitar tudo o que venha da mão do Pai. Só ele sabe o que nos convém. E se forem mais convenientes a necessidade e a privação (...) então devemos estar prontos para aceitar também isso."
A questão é de Amor. Se nos sentimos filhos amados do Pai, sabemos com verdade que ele só nos reserva o melhor para nós. Sabemos igualmente que o que isso é, Ele o sabe melhor que ninguém - confiamos na Sua Sabedoria, que tem o Amor na sua base, mais uma vez.
Falar de confiança, falar de obediência, não faz sentido se não houver antes a experiência de se sentir verdadeiramente amado por Aquele que nos pede que o sigamos.

Por outro lado, essa experiência de Amor depende da própria confiança que se tem: é ao entregar-me nas mãos de Deus, ao viver pelos Seus desígnios, que me vou apercebendo para onde Ele me leva, que vou descobrindo que há um plano feito pelo Pai para cada um de nós.
Seguir o caminho que Ele nos propõe é um exercício considerável de humildade. Não só discordamos imensas vezes de Deus quanto ao que achamos ser o melhor para nós, como nos custa a ideia de não ser auto-suficiente, de a minha auto-realização necessariamente não passar apenas por mim. Aí a Vontade de Deus deixa de surgir como plano amoroso de um Pai que me guia, e passa a voz autoritária que me impede de caminhar por mim mesma. E o maior choque passa, no fim, não tanto pela ideia de perda de "auto-suficiência", mas pelo reconhecimento de que o caminho indicado é efectivamente o melhor possível, o que se torna trágico se isso se afigura como um ultimato, fora do qual a felicidade sempre me escapará.

"O meu coração está inquieto enquanto não repousar em Deus", diz Santo Agostinho, apontando-nos algumas pistas. A reconciliação chega pois pela descoberta de uma nova dimensão da minha vida: já não a vejo como algo determinado por uma vontade completamente alheia a mim, mas como um caminho em que Criador e criatura caminham lado a lado para um mesmo fim. Descubro que sou feita para Deus e que a Ele aspiro, qualquer que seja a minha personalidade e a vida que levar - o plano de Deus para mim não é pois senão a "via-rápida" que Ele me oferece para lá chegar.
Caminhar pela estrada que Ele me propuser pode ser uma experiência de profunda inquietação - os caminhos que Deus propõe podem ser inesperados e completamente diferentes das nossas aspirações pessoais. Mas é através deles que me descobrirei a mim mesma da melhor maneira possível, e que encontrarei a plenitude, em última análise, na descoberta desse Amor como vocação maior do Homem.

segunda-feira, fevereiro 28, 2005

(A jeito de comentário mas não só)

3º Domingo

É tempo de ser humilde e recomeçar o caminho para a Fonte.



(E o salmo dizia:
Hoje se escutardes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações

Digo que Sim.)

domingo, fevereiro 27, 2005

3º Domingo

Evangelho segundo S. João 4,5-42

A Palavra de Deus que hoje nos é proposta afirma, essencialmente, que o nosso Deus está sempre presente ao longo da nossa caminhada pela história e que só Ele nos oferece um horizonte de vida eterna, de realização plena, de felicidade perfeita.

O Evangelho garante-nos que, através de Jesus, Deus oferece ao homem a felicidade (não a felicidade ilusória, parcial e falível, mas a vida eterna). Quem acolhe o dom de Deus e aceita Jesus como “o salvador do mundo” torna-se um Homem Novo, que vive do Espírito e que caminha ao encontro da vida plena e definitiva .

in www.agencia.ecclesia.pt
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Se eu conhecesse o dom que Deus tem para dar e Quem é que me diz: 'dá-Me de beber'..


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Mario Sironi: Christ and the Samaritan woman (1947)

terça-feira, fevereiro 22, 2005

Antero de Quental

"A intuição e a ideia são apenas duas ondas produzidas pelo mesmo impulso; duas vozes da mesma boca, duas expressões do mesmo olhar. O que deseja o coração, o que quer a inteligência, é uma coisa só: luz e amor: a verdade que se vê e a verdade que se sente.

A inspiração e o pensamento são dois eternos combatentes que o Homem mandou à conquista do mundo: diferentes são as armas: mas no pendão de ambos está gravada esta mesma legenda: Verdade."



Especifica Antero que Verdade é a Beleza, muito para "além da Ideia [ciência] e para além de Deus". Vejo nela um veículo possível para a Verdade, não a Verdade em si, mas deixe-se cair "Beleza" (enquanto valor absoluto) e deixe-se ficar "Verdade", e temos palavras acertadas. Substitua-se "Verdade" por Deus e mais acertadas ficam?

segunda-feira, fevereiro 21, 2005

2º Domingo

Santo Efrém (c. 306-373), diácono na Síria, doutor da Igreja
Sermão sobre a Transfiguração

«Este é o meu filho muito amado, no qual pus todo o meu amor»


Ele conduziu-os ao cimo da montanha para lhes mostrar a glória da Sua divindade, e lhes dar a saber que Ele era o Redentor de Israel, como o havia mostrado pelos Seus profetas...
Eles tinham-nO visto comer e beber, cansar-se e descansar, adormecer e dormir, suportar o terror até às gotas de suor, tudo coisas que não pareciam nada em harmonia com a Sua natureza divina e só convir à sua humanidade. Eis a razão pela qual os conduziu à montanha, a fim de que o Pai Lhe chamasse Seu Filho e lhes mostrasse que Ele era mesmo Seu filho, e que era Deus.

Conduziu-os à montanha e mostrou-lhes a Sua realeza antes de sofrer, o Seu poder antes de morrer, a Sua glória antes de ser ultrajado e a Sua honra antes de sofrer a ignomínia. Assim, logo que fosse preso e crucificado, os Seus apóstolos compreenderiam que não o fora por fraqueza, mas por consentimento e de bom grado, pela salvação do mundo.

Conduziu-os à montanha e mostrou-lhes, antes da Sua ressurreição, a glória da Sua divindade. Assim, logo que ressuscitasse de entre os mortos na glória da Sua divindade, os Seus discípulos reconheceriam que não recebia essa glória em paga da Sua dor, como se disso precisasse, mas que ela Lhe pertencia desde antes dos séculos, com o Pai e junto do Pai, tal como Ele próprio diz quando a sua Paixão voluntária se aproxima: «Pai, glorifica-me com a glória que tinha junto de Ti, antes do princípio do mundo» (Jo 17,5).