O tempo não se compadece de nós, das nossas necessidades e sentimentos - tem, aliás, fama de mau, correndo quando o nosso coração está cheio e estendendo-se eternamente quando o momento nos custa.
Só mesmo o Homem para ver um inimigo no Tempo, na sua cadência certa e infalível que nos poderia sossegar, assegurando-nos que o mundo não sai do seu eixo, e que no meio do devir constante há algo que permanece - nem que seja a própria mudança. Deve ser porque sofremos cronicamente do sentimento de que o nosso tempo na terra é pouco - afinal, não me posso esquecer que a morte caminha sempre ao nosso lado, mesmo que distraídos crónicos como eu raramente tomem consciência de tal companhia.
Para muitos é a descoberta da escassez do (seu) tempo, o confronto com a sua própria finitude que os lança para o mundo com urgência e entusiasmo. (Antes, lançavam-se com uma urgência e entusiasmo bem mais leves, que não precisavam de tão pesado "fantasma" como ignição. - Antes eram crianças, descubro.)
Não gosto desse entusiasmo que nasce de um ultimato e se alimenta da angústia fina que se agarra à alma, aproveita-agora-que-amanhã-já-cá-não-estás. Não gosto de ultimatos e não gosto que me apressem.
De igual modo me irritam esses anti-heróis existenciais que gritam a ousadia de caminhar de braço dado com a morte e a coragem de viver com o desencanto e dele fazer forças. Para lá da capa de lucidez, é um heroísmo que nasce do medo e que dele se alimenta. Tenho medo de muitas coisas, até mais do que pode ser sensato, mas não quero fazer do medo uma vocação.
Sou "fã do Absoluto". Talvez por isso tendam a passar-me ao lado tais angústias: numa mistura de optimismo e ingenuidade, e alguma mania para achar "Poesia" em tudo e mais alguma coisa, não seria difícil acusar-me de não ver a realidade.
Por outro lado, o conceito de Fé esclarecida é-me tanto querido quanto difícil - a parte do "esclarecida" tem tendência a sobrepor-se e sou rápida a reclamar.
Somos nós assim, uma mistura de docilidade e teimosia que nos faz insurgir contra o nosso tempo mas receber com uma passividade às vezes quase criminosa o que ele nos dá, sem olhar com olhos de ver e mãos de fazer.
Somos nós assim, lutando por uma lucidez que nos faça sentir inteligentes e donos das nossas escolhas mas que fale do Absoluto.