Voltei a descobrir nas coisas a beleza transcendente, olhar para o céu, uma árvore, um barco, e (saber) vê-los habitados de alma, de poesia. Reconciliei-me com os sentidos pela lente de uma máquina fotográfica. Andar de máquina em punho, ou vendo o que outros fotografam, põe a sensibilidade em alerta e abre os olhos para os pormenores e para a poesia que habita escondida (ou não tão escondida?) no quotidiano.
Não estou muito certa de que razão e coração acompanhem plenamente o reencontro, mas sabe bem este bocadinho de leveza renovado.
Não dou grande fotógrafa, mas sabe bem devolver aos meus olhos, à minha pele, a magia que a eles pertence, a capacidade de transfigurar o mundo, mesmo que o resultado seja pouco mais que “assim-assim”.
Talvez seja apenas mais uma mania passageira mas sabe bem, pronto.
Até porque o que pode faltar ainda à fotografia como solução para os meus
amuos existenciais ,ou simplesmente como modo de expressão, não difere do problema do costume que me apoquenta a palavra escrita, a poesia – qualquer criação, na verdade: saber se há nas mãos a beleza que há no mundo, aquela que se pretende recriar, que quero tornar também um pouco minha.
( - afinal o que faz o artista? Procura chamar a si a beleza das coisas, ou dar-lhes a elas a beleza que há na sua sensibilidade pessoal?)

Interroguei o céu, o sol, as estrelas (...) Contemplá-las era a minha pergunta e a resposta delas era a sua beleza.
Santo Agostinho