quarta-feira, janeiro 26, 2005

Às vezes dá vontade...

...

Pelos Ares (2002)
Adriana Calcanhotto / Antonio Cícero

Não lhe peço nada
Mas se acaso você perguntar
Por você não há o que eu não faça
Guardo inteira em mim
A casa que mandei
Um dia
Pelos ares
E a reconstruo em todos os detalhes
Intactos e implacáveis
Eis aqui
Bicicleta, planta, céu,
Estante cama e eu
Logo estará
Tudo no seu lugar
Eis aqui
Chocolate, gato, chão,
Espelho, luz, calção
No seu lugar
Pra ver você chegar



Cavalo voador e malabarista. Marc Chagall, 1887, litografia 1956

terça-feira, janeiro 25, 2005

sempre fui teatral...

... quem diria!

Actress (AM-FM)
You're stuck at home, standing alone
This time you're choking with your words
Staring your face, faking an end
You act a dream that it's not yours
You pretend and perform, don't you ever stop trying
You were meant to be
You're suppose to be
The most happy girl in this whole world
You're a part of me
Don't you ever be
Far away from me in this whole world
The Gift



Marc Chagall - Le Cirque bleu (1950)


segunda-feira, janeiro 24, 2005

Robert Doisneau (2)



Beijo em frente ao Hôtel de Ville

...

Robert Doisneau


músico à chuva

...essa que parece nunca mais chegar..

sexta-feira, janeiro 21, 2005

retomo... cantando!

Eu cantarei,
quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
eu cantarei,
quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
eu cantarei,
quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio
eu cantarei
e nas estradas ladeadas por abetos,
nas áleas dos jardins emaranhados
nas esquinas das ruas, nos pátios
das casas-de-guarda,
a Tua Vitória entrará como um som de clarim
e o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento.


Álvaro de Campos (Pessoa: 1888-1935)
Poesia

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Esta canção hoje não me saiu da cabeça:

Mas hoje à noite se um fado qualquer
soar estafado na sala de estar
talvez se aguente sem nada dizer,
enchendo a boca durante o jantar.

Quinteto Tati - Um fado qualquer


Hoje acordei invadida pelo Fado, nostalgia que se pega aos ossos e não se deixa sacudir.
Então vagueei por Lisboa.
Procurei jardins, as ruas estreitas e chuva, e sorri aliviada por tornar a reconhecer nas folhas das árvores e nas pedras da calçada os meus bocados perdidos.
Achei num jardim um riacho e fiquei a ouvir o seu som constante e o fluir das águas, a lembrar-me de como a vida pode ser.
Entrei nas igrejas, escuras, graves e silenciosas, e dei graças por reencontrar, por momentos, o calor da Luz sem sombra.
Atravessei o rio para a minha Setúbal, peguei no papel e caneta, e descobri de repente que o que é familiar continua aqui.

terça-feira, novembro 02, 2004

Parentesis

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

(Mas nem toda a lucidez é derrota - cessam os braços-de-ferro, simplesmente, não há vencedores nem vencidos.)

Ainda bem que nem todas a despedidas pesam como chumbo, e há comboios que sabe bem apanhar:
Baixam-se as armas
Sorri-se?
Parte-se.