Beijo em frente ao Hôtel de Ville
...
do Verbo Encarnado se esclarece o mistério do homem
Eu cantarei,
quando a manhã abrir as portas do meu esforço,
eu cantarei,
quando o alto-dia me fizer fechar os olhos,
eu cantarei,
quando a noite entrar como a Imperatriz vencida
eu cantarei a Tua Glória e o meu desígnio
eu cantarei
e nas estradas ladeadas por abetos,
nas áleas dos jardins emaranhados
nas esquinas das ruas, nos pátios
das casas-de-guarda,
a Tua Vitória entrará como um som de clarim
e o meu desígnio esperá-la-á sem segundo pensamento.
Mas hoje à noite se um fado qualquer
soar estafado na sala de estar
talvez se aguente sem nada dizer,
enchendo a boca durante o jantar.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estamos aqui
porque não existe nenhum refúgio
onde esconder-nos de nós mesmos.
enquanto uma pessoa
não se confronta consigo própria
nos olhos e corações das outras pessoas,
foge.
enquanto não lhes permite
que compartilhem os seus segredos,
não se liberta deles.
com medo de se dar a conhecer
não pode conhecer-se a si própria
nem aos outros.
ficará só.
onde,
se não no que temos em comum,
poderemos encontrar um espelho assim?
aqui, juntos,
cada um de nós pode, enfim,
manifestar-se abertamente.
não como o gigante dos seus sonhos,
nem como o anão dos seus medos,
mas como um homem,
parte de um todo,
com o seu contributo a dar.
neste campo,
todos nós podemos criar raízes e crescer.
já não sós como na morte
mas vivos para nós
e para os outros.
Arbusto de dois pés, com movimento,
É cada homem um fugaz rebento
Da cósmica semente
Que o sol aquece.
Terra, portanto,
São de terra o seu riso e o seu pranto,
Frutos que o mesmo sol amadurece.
Mas há um sonho de céu em cada ramo.
E contra essa atracção
De não sei que invertida
Gravidade,
O Santo põe cilícios sob o manto,
E o poeta palavras no seu canto.