quarta-feira, dezembro 01, 2004

Esta canção hoje não me saiu da cabeça:

Mas hoje à noite se um fado qualquer
soar estafado na sala de estar
talvez se aguente sem nada dizer,
enchendo a boca durante o jantar.

Quinteto Tati - Um fado qualquer


Hoje acordei invadida pelo Fado, nostalgia que se pega aos ossos e não se deixa sacudir.
Então vagueei por Lisboa.
Procurei jardins, as ruas estreitas e chuva, e sorri aliviada por tornar a reconhecer nas folhas das árvores e nas pedras da calçada os meus bocados perdidos.
Achei num jardim um riacho e fiquei a ouvir o seu som constante e o fluir das águas, a lembrar-me de como a vida pode ser.
Entrei nas igrejas, escuras, graves e silenciosas, e dei graças por reencontrar, por momentos, o calor da Luz sem sombra.
Atravessei o rio para a minha Setúbal, peguei no papel e caneta, e descobri de repente que o que é familiar continua aqui.

terça-feira, novembro 02, 2004

Parentesis

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

(Mas nem toda a lucidez é derrota - cessam os braços-de-ferro, simplesmente, não há vencedores nem vencidos.)

Ainda bem que nem todas a despedidas pesam como chumbo, e há comboios que sabe bem apanhar:
Baixam-se as armas
Sorri-se?
Parte-se.

sexta-feira, setembro 17, 2004

Filosofia

Estamos aqui
porque não existe nenhum refúgio
onde esconder-nos de nós mesmos.
enquanto uma pessoa
não se confronta consigo própria
nos olhos e corações das outras pessoas,
foge.
enquanto não lhes permite
que compartilhem os seus segredos,
não se liberta deles.
com medo de se dar a conhecer
não pode conhecer-se a si própria
nem aos outros.
ficará só.
onde,
se não no que temos em comum,
poderemos encontrar um espelho assim?
aqui, juntos,
cada um de nós pode, enfim,
manifestar-se abertamente.
não como o gigante dos seus sonhos,
nem como o anão dos seus medos,
mas como um homem,
parte de um todo,
com o seu contributo a dar.
neste campo,
todos nós podemos criar raízes e crescer.
já não sós como na morte
mas vivos para nós
e para os outros.


quarta-feira, setembro 08, 2004

Meditação

Arbusto de dois pés, com movimento,
É cada homem um fugaz rebento
Da cósmica semente
Que o sol aquece.
Terra, portanto,
São de terra o seu riso e o seu pranto,
Frutos que o mesmo sol amadurece.

Mas há um sonho de céu em cada ramo.
E contra essa atracção
De não sei que invertida
Gravidade,
O Santo põe cilícios sob o manto,
E o poeta palavras no seu canto.

Miguel Torga

quarta-feira, agosto 18, 2004

mais Tabacaria

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Janelas

(Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
Mania a minha de que tenho algo para dizer ao mundo, que me faz compreender o azedume que adivinho (ou invento?) nestas palavras.
Mas esperarei mesmo chegar a janelas alheias sem saber com que olhos olhar para fora da minha? Nunca escolher horizontes me pareceu tão importante, nem nunca eu hesitei tanto em fazê-lo. [E se soubessem quem é, o que saberiam?])

E porquê opôr o mistério à vida possível? A Milene tem razão, o mistério habita as coisas, habita-nos, não nos cala nem se nos opõe nem se apresenta como uma transcendência impossível.
Não sejas tonto, poeta, não te afastes assim de viver, não oponhas a realidade ao sonho ou ao mistério como se querer mais fosse sentença de passar ao lado da vida!
Gosto mais dele quando diz:
Gostava de admirar a beleza das coisas, descobrir no imperceptível, através do diminuto, a alma poética do universo.

Faz do mistério uma janela, olha para a rua com gosto!
Desculpem-me os meus amigos existencialistas, mas continuo a irritar-me com um certo conceito de "vida possível" que parece exigir de nós que fechemos todas as janelas que vale a pena abrir, para que esta vida seja suportável e eficaz, seja... real? (e ver reduzir a vida à eficácia arrepia-me um bocadinho, confesso).

O mistério desperta.
O mistério dá vontade de conhecer.
O mistério aponta para o alto.

perdas

um biólogo entrou e saiu
ficam a filósofa e a farmacêutica pseudo

terça-feira, agosto 17, 2004

Tréguas

E hoje deixei de tentar erguer os planos de sempre
Aqueles que são pra outro amanhã que há-de ser diferente
Não quero levar o que dei, talvez nem sequer o que é meu
É que hoje parece bastar um pouco de céu

Um pouco de céu, Mafalda Veiga

Mas que tréguas são estas que voltam a trazer para o palco o que me faz andar às voltas? (Que bom, é o fim do braço de ferro de tentar a indiferença!)