domingo, agosto 15, 2004

Tabacaria vs Incenso

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.


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é mentira!
sim, hoje também me sinto vencida e horrivelmente lúcida
mas a irmandade mantém-se, a fraternidade é próxima
os nervos sacodem-se.. e continuemos a andar (ah! era os pés.. vai dar ao mesmo)

e contra a divisão da lealdade, aponto para a unidade
na realidade há mistério
no mistério há realidade
e só se divide quem é teimoso
eu? baixo os braços e rendo-me outra vez

recomecemos..
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Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?


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eu não falhei em tudo. n te vitimizes..
sim, ok, também não fiz grandes propósitos, eram precisos?
ok, sim sim sim reconheço
esse propósito romano
de cedência à Luz
esse ainda está longe de alcançar
vamos aos poucos, sim?
e não vale a pena irmos pelas traseiras, regra geral são sempre mais escuras.
a sair, fernando, é pela frente!
no que vou pensar?
em não pensar demasiado, estou farta!


Apareceu no Céu um sinal grandioso: uma mulher revestida de sol e com a lua debaixo dos pés

quarta-feira, agosto 11, 2004

Ano santo em Santiago de Compostela

Fez no príncipio deste mês de Agosto um ano que peregrinei a pé até Santiago de Compostela. É mais uma daquelas ocasiões em que as palavras parecem não chegar, mas em que o impulso de partilhar, de reviver, de exprimir também não me deixa ficar calada.

Passo à frente da maneira como em geral se acha que ir a Compostela é muito espiritual e aventureiro, enquanto ir a Fátima é ser tacanho; a verdade é que ao início também me impeliu mais o simples desejo de partida que um apelo espiritual.Mas comecei a caminhar e acabei a peregrinar: caminhar assim, desta maneira especial, abre o coração de uma maneira rara: presta-se ao silêncio interior de onde pode nascer a oração e que dá espaço para que Ele entre e fale sem outras vozes a tapar, aquele tipo de silêncio e disponibilidade que se torna difícil quando há toda a vida mais quotidiana a puxar por nós.

Acho que é por isso que todos sentimos pelo menos uma vez, até os mais sedentários, desejo de viajar. Sair dos horizontes a que acostumámos os nossos olhos fá-los olhar não só para coisas novas como olhar de maneira diferente (mais isenta, objectiva??) para nós próprios e para o horizonte do qual nos afastámos.

Mas porque é que peregrinar é diferente?
Ando a ler um livro em que se critica a mania que temos de dizer que precisamos de "espaço", e de confinarmos a nossa realização a um qualquer espaço vazio que perseguimos constantemente e podemos encher como nós quisermos. Para já não falar de um espaço assim ser quase utopia, é desligado do resto da vida, absolutizado em detrimento da vida como um todo (acharmos que toda a nossa felicidade depende só da carreira, ou só de uma relação, qualquer coisa). Não passará a riqueza da peregrinação por constituir um espaço verdadeiro, sem pretensões de vir resolver tudo e mais alguma coisa? Espaço no verdadeiro sentido do termo porque não está cheio de toda a nossa tralha, é antes um receptáculo, um convite (mesmo que nem sempre seja um convite totalmente consciente) para que entre Ele.

Se o permitirmos, se quisermos caminhar com Cristo e para Cristo - qualquer que seja a devoção em particular que nos leva - peregrinar amadurece, purifica, fortalece a nossa Fé e a nossa vida. Faz de nós um pouco mais dignos de sermos "sacrários ambulantes". E ensina o gosto pelo Caminho como poucas coisas conseguem. :)


E um muito obrigado a todos (mas nesta data em especial aos que acompanhei a Santiago) os que comigo já partilharam caminho, o seu caminhar, e a Graça de crescer um pouco mais.

quinta-feira, agosto 05, 2004

Parto rumo à maravilha
Rumo à dor que houver pra vir
Se eu encontrar uma ilha
Paro pra sentir
E dar sentido à viagem
Pra sentir que eu sou capaz
Se o meu peito diz coragem
Volto a partir em paz

Capitão Romance - Ornatos Violeta

Preciso sempre de continuar. Parece-me pior crime a inércia e a apatia que a zanga e a revolta (esses podem dar lugar ao crescimento, a indiferença não.)

segunda-feira, julho 19, 2004

de repente

.. a cirandar na blogosfera, eis que encontro um post que me chama a atenção

e não é que Chagall trouxe novo significado de espelho?

ainda não tinha percebido o "espelho" em Fátima (aos poucos, devagarinho)


Por desígnio divino, veio do Céu a esta terra, à procura dos pequeninos privilegiados do Pai, «uma Mulher revestida com o Sol» (Ap 12, 1). Fala-lhes com voz e coração de mãe: convida-os a oferecerem-se como vítimas de reparação, oferecendo-Se Ela para os conduzir, seguros, até Deus. Foi então que das suas mãos maternas saiu uma luz que os penetrou intimamente, sentindo-se imersos em Deus como quando uma pessoa - explicam eles - se contempla num espelho.


(naquele dia de calor)


e com o "espelho" em S. Paulo

Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita. Então, conhecerei exactamente, como também sou conhecido.
Agora subsistem estas três: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior delas é a caridade  1 Cor 13, 12-13



e, à mesma comunidade

E a todos nós, com a cara descoberta, com a cara reflectindo a glória do Senhor, como um espelho, somos transformados de glória em glória, nessa mesma imagem, sempre mais resplandescente, pela acção do Espírito do Senhor  2 Cor 3, 18



fico feliz porque o Céu ama a Terra.

.. e hoje é dia de Terra da Alegria.

não deixa de me surpreender

.. que seja preciso pedir o que devia estar à partida assumido nas nossas vidas





domingo, julho 18, 2004

noite de cinema

em casa

sic mulher - Camille Claudel, filme documentário sobre escultora francesa (1854-1943)


camille claudel, la valse


rtp2 - Nha Fala

(cenário quase de início - igreja, o padre não está, quem dirige o coro?)

Vamos votar
(e apareciam os diferentes candidatos, cada um a publicitar uma característica)

Governar? uma questão de
- autoridade
- competência
- sedução
- coração
- vontade
- tradição

Bastará ser bom marinheiro para ser bom capitão?
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(o ex namorado contrabandista)
Vita
Abre a porta!
eu não sou o pior dos homens!
 

sábado, julho 17, 2004

Gaudium et Spes

Cristo, o homem novo

22. Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime.